Trabalhou a vida inteira e continua trabalhando com se ventura desta vida não fosse a cabrocha e o vilão. Juntou e continua juntando como um perdulário banqueiro. Percebe-se que ainda se encontra rijo, mas a aparência dá sinais de efetivo cansaço.
Não nasceu para o lazer, mas para o trabalho. Não percebe que o caminhão velho quando está para pifar melhora o desempenho, como se o prenuncio da morte fosse uma demonstração de vida.
A rotina exaustiva de trabalho que sempre teve foi a moto contínua de sua vida. Nunca teve e não tem pausa, pois está sempre com pressa para trabalhar e juntar um monte de coisas e de bens dos quais não usufruiu e nem vai desfrutar.
Foi instado, várias vezes a parar, mas não o fez e corre o risco da síndrome do caminhão velho: pifar de uma vez por todas sem salvação. Depois amealhar mais para que e para quem? Para aqueles que não sabem o valor e nem para que serve o trabalho. Eles irão, por não saber como ganha, dilapidar tudo inapelavelmente quando o pé de boi, burro de carga ou o jerico paulista passar para outro plano.
É preciso que faça alguma coisa antes de se tornar incapaz para o trabalho que sempre amou, pois sempre resta o infarto ou pior ainda psiquiatra (Vinicius de Moraes). Quando isto acontecer não terá condição para gastar e sobrará tédio e solidão. E a única coisa que fará, sem apelação, é abastardar os serviços médicos e enriquecer os laboratórios com a compra infindável de remédios.
Gaste um pouco ou muito de tanto dinheiro acumulado. Aprenda a ficar atoa e a usufruir do lazer e das coisas boas da vida, pois daqui nada se leva. O seu rico dinheirinho suado – quando não estiver mais aqui – irá bancar lutas intestinas e fraticidas entre os seus descendentes e agregados. Não foi para isto que se trabalhou tanto!
Enfim, a vida é sua, faça o que quiser dela, mas pense numa recomendação de quem entende:
“ Você que só ganha para juntar
O que é que há, diz pra mim o que é que há?
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar……
Pois é, amigo, como se dizia antigamente, o buraco é mais embaixo… E você com todo o seu baú, vai ficar por lá na mais total solidão, pensando à beça que não levou nada do que juntou: só seu terno de cerimônia. Que fossa, hein, meu chapa, que fossa….. “(Testamento – Vinicius de Moraes)
Renato Gomes Nery. E-mail – rgnery@terra.com.br